Sim, tenho um cancro maligno. Grau 3.

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Sim, tenho um cancro maligno. Grau 3.

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Olá, o meu nome é Maria de Fátima, tenho 66 anos e não há outra maneira de me explicar: tenho um cancro dos ruins

Poder, podia não me servir da palavra quase proibida: cancro, mas é esta a palavra certa.
Poder, podia servir-me do jargão técnico tal como consta do meu Relatório Anátomo-Patológico no parágrafo destinado ao Diagnóstico: «(...) Carcinoma Invasivo da mama SOE, grau 3 de malignidade histológica (...)»

As palavras têm um valor e entre cancro e carcinoma invasivo reparo, agora, que a diferença não é grande. Até é possível que seja um poema cru.

A juntar ao cancro, sobrevém uma incapacidade notável e muito irritante para quem estava habituada a subir a escadotes e encontrar o livro procurado ou lavar vidros das janelas desta casa. Tarefas de igual valor. Não lhes vejo diferença. Tenho dores. Chatas, incómodas e estou a ser branda.

Mas há uma história que me situa antes desta novidade física: em 2016 passei das traduções francês-português e vice-versa para o curso de direito na clássica Faculdade de Direito de Lisboa. Uma forma de me dar alento, lavar o cérebro no decorrer de um divórcio litigioso, para lhe não chamar sujo. A curiosidade do saber e sobretudo duvidar andou de braço dado com o dever de acompanhar a mãe; essa mesmo: a Maria João, na sua imensa vida alegre e triste. De facto, mãe, enterrar o marido e dois filhos devia ser inconstitucional. Contudo a lei da vida está-se nas tintas para as partidas dos corpos. Era melhor atirar com a mãe para um lar? Não. A mãe ficou em casa, eu com ela e com a casa e um curso interrompido (aqui entre nós, nunca gostei de Economia.)

Assim, até ao dia 26 de Maio de 2025, momento em que a a morte libertou a Maria João das dores e sofrimentos, fui eu quem se encarregou da mãe e das memórias dela misturadas com as minhas e com uma herança feita de livros e histórias. Aqui fiquei a recordar a vida da família Rolo Duarte e curiosamente apenas guardei as felicidades e risotas, discussões napolitanas que começavam do nada para acabar em zero. Nunca fomos os sempre-em-festa, mas antes uma familória muito engraçada e viva da costa.

Foram muitos anos cheios de gargalhadas mesmo quando se ouvia o temível "Maria de Fátima" que desaguava em "desculpem"; cabecinha baixa ou o clássico não-fui-eu-foi-o-gato (no caso, o mano mais novo).

Nesta caminhada doida e simples apareceu a Madalena, filha da sua mãe que nunca falhou ou se falhou não dei por nada e ainda a maravilhosa Fernanda que se ocupou dos últimos dias da mãe João. Quatro mulheres entregues umas às outras. Não há que espantar.

Agora vamos ao que interessa. As contas em €.
1. Tenho dívidas no valor de 6.738 euros que vêm de lá de trás, dos gastos malucos com fraldas e comida, cama articulada e ainda as famosas mandarinas-clementinas que a Maria João devorava com um prazer e risota.

2. E ainda, a parte que que dá cabo de mim: as despesas fixas de 850 euros/mês relativas aos meses da minha futura quimioterapia que não será pera doce. Não estarei capaz de trabalhar. Tão certo como irei tentar comer bem para não emagrecer mais.

3. Não me perguntem por poupanças que voaram. Não tenho fonte de rendimentos. E por favor, não me façam sentir culpada pelas decisões que sempre me pareceram correctas/incorrectas. Não sou santa, ainda.

O que preciso é simples e mais simples será se contar com a ajuda de todos os desta "aldeia":
A paz, o pão (de aveia) e a habitação em forma de doação solidária.

A doença abala o corpo, mas a angústia de não conseguir garantir-me o mínimo é ainda mais dura. Claro que tenho um pequeno comité de ajuda onde conto com amigas (duas mulheres que benza-me Deus, chatas, magníficas e preciosas. Não por esta ordem) e a minha filha Madalena que tem muito mais força do que leões e águias, elefantes e rios, mares e montanhas. O Nuno com os seus defeitos e feitios. E o João que me cai sempre na sopa sem estardalhaço, muito humor e gentileza. Juro. O João também me faz a cabeça em puré, mas abençoado.a seja quem o criou.
E agora é com vocês pois vitória, vitória, acabou-se, por enquanto, esta história que espero tenha um final decente, digno, bom, bem bom e sobretudo alegre e também feliz, porque não? Ora, porque sim.

Aceitem a minha terna e eterna gratidão e um abraço apertado para aquelas coisas da Força! Força! Muita Força,
Maria de Fátima!


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