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21 maio 2025
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O Maio enviou-nos uma mensagem de voz, que diz assim:
«Beatriz, boa noite
como tu sabes, a situação que te contei, está muito difícil e estou muito cansado. desde que começou em 2012, que tem sido difícil. tem impedido várias coisas na minha vida, até mesmo brincar com os amigos.
estou a pedir-vos ajuda porque sozinho não estou a conseguir. sou só eu e a minha mãe. a minha mãe é que tem assegurado tudo, com muito esforço. depois, deixou de conseguir. tenho vindo a trabalhar, e quando consegui, fui ao médico para ver o que se passava com o meu corpo.
eu acho que não há ninguém que estando doente, não faça nada. então é bom quando as pessoas se juntam e apoiam. não há lugar para querer ou deixar de querer. eu aprecio a iniciativa da minha colega, que quer fazer alguma coisa para conseguirmos.
eu só posso agradecer-vos. sozinho não estou a conseguir, e é por isso que estamos a pedir que partilhem, para ter apoio e poder cuidar da minha saúde. eu penso que deus é grande.
que deus nos dê força. e que vos dê força para conseguirem tudo o que desejam.
desejo que vocês fiquem bem, e que tudo corra bem.
muito obrigada.».
19 maio 2015
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hoje falei com o Maio. ele enviou-me o relatório médico da junta médica, onde consta o diagnóstico "POLIPOSOS NASAIS COM EXTENSÃO POSTERIOR AO CAVUM FARINGEO OBSTRUINDO AS COANAS E SINUSITES MAXILARES, ETMOIDALIS E ESFENOIDAIS". contei-lhe que comecei esta angariação de fundos, ele agradeceu. perguntei como se andava a sentir. sente dores. queixou-se da garganta em particular, e diz que também tem sangrado. pela sua voz, percebe-se que está com dificuldades em respirar. a sua narina direita está completamente obstruída com uma massa, o tal pólipo. perguntei se tinha algum dinheiro - para o visto e a viagem. disse-me que nenhum. a certa altura, na conversa, diz que não estando a encontrar solução e ajuda, que tem medo de vir a "perder", que tem tido pensamentos maus. penso que se referia à sua vida. perguntei-lhe se não queria gravar um áudio ou um vídeo a explicar a situação e como se está a sentir, e a apelar à vossa solidariedade. disse-me que o faria.
pesquisei sobre pólipos nasais.
"Os pólipos nasais são formações carnosas da membrana mucosa nasal." (...) "Rinite alérgica, infecções nasossinusais agudas e crônicas e fibrose cística são todos predisponentes para a formação de pólipos nasais. Pólipos sangrantes ocorrem na rinosporidiose. Pólipos unilaterais ocasionalmente ocorrem em associação ou representam tumores benignos ou malignos do nariz ou dos seios paranasais." (https://www.msdmanuals.com/pt/profissional/dist%C3%BArbios-do-ouvido-nariz-e-garganta/dist%C3%BArbios-de-nariz-e-seios-paranasais/p%C3%B3lipos-nasais)
18 maio 2025
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uma junta médica é um mecanismo que "facilita" a emissão de vistos de estadia temporária para as pessoas receberem tratamento médico fora do país.
o processo de pedido de junta médica, de aquisição do visto e da viagem tem de ser pago pela pessoa doente, amigos ou familiares.
nesse sentido, apelo à vossa solidariedade para ajudar um amigo que precisa muito ser visto em portugal. qualquer doação é uma contribuição válida e faz a diferença. se só podes deixar 1 euro, não o deixes de o fazer.
o Maio é responsável por um posto de carregamento de baterias de dispositivos, que fornece energia através de gerador. cada carregamento varia entre os 100 e os 250cfa. estamos a falar de 15 cêntimos por cada telemóvel carregado. depois de umas semanas em Bissau para tentar agilizar o processo da junta médica, o Maio voltou pra Calequisse para trabalhar. mas "i ka ta sinti korpu" - o corpo não está bem.
14 maio 2025
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hoje falei com malta de calequisse. há um rapaz, o Maio, quem montou um sistema eletrico com geradores p carregar baterias, está com um tumor fodido a tapar-lhe as vias respiratórias. eu acho q é tumor, porque é uma cena que cresce, mas pode ser outra coisa, não sei. já estava a crescer quando eu lá estive, mostrou-me. e eu percebi que era grave. de há uns meses para cá tem vindo a piorar. emagreceu, muita febre.. acho q está na viragem a tentar ver se consegue junta médica, mas deve estar fdd. os esquemas de vistos na Guiné são uma vergonha. precisa entre 2 a 5 ou 6 mil paus. não sei... alguma ideia de alguma coisa q seja possível fazer?
desculpa estar a contar-te isto. sei que não são notícias animadoras. eu fiquei muito triste. a impotência.. pensar q até hoje nem fiz nada p saber se há alguma coisa q possa fazer em relação a isto. um rapaz jovem pode morrer por falta de assistência medica, e eu sabendo nem me mexi. de volta, eu, no meu conforto, com os meus probleminhas. ai q o amor não responde. e a malta fodida. sem eletricidade. água, dia sim dia não. sem hospital. escola pouca. a Florença também estava a morrer, de anemia. falta de sangue, dizia. já tinha ido muito ao médico, Dakar. e eu a levar-lhe feijão e legumes de folha verde escura. porque a salsa tem ferro e podes plantar na tua horta. morreu. eu vi o corpo. vi-a de olhos abertos, sentada, morta. vi-a viva no dia da sua morte. abracei-a. dei-lhe comprimidos para não sentir dor. não sabia que ia morrer. e pessoas à minha volta compram e compram e compram, merdas que podiam pagar centenas de vidas nestas situações. e eu.. na impotência, no comodismo, na nostalgia. escrevo. mal escrevo. é. a flor. a canção. a poesia. a palavra como arma. pode a palavra a transformação, como a arma? e eu mal escrevo, contra os ataques à vida. e mal escrevo a favor da subsistência. e a subsistência é tão mal compreendida. dizem que é a favor de pessoas morrerem por não haver subsistência que crie máquinas que dêem força ao coração. eu também não a compreendo, mas intuo-a. enquanto falam e dizem e até parecer ser, q a acumulação de capital é o q soluciona a vida e a morte, sei que é mentira. porque não há vida produzida a partir do que é morto. lembraste? o que é morto e o que é vivo? só vida pode produzir vida. não há máquinas que sozinhas façam um coração bater. mas por de trás de cada máquina e coração há trabalho, e eles dizem que é a natureza. que é natural. que é amor. mas a máquina não se liga sozinha e todo o homem precisa de uma mãe.





